A tentação do “entrismo”
por Dardo Juan Calderón
Quando alguém consegue, com a ajuda de inumeráveis deserções, traições, covardias [cagonerías], prudências, adaptações aos tempos e às exigências da sobrevivência, pertencer ao lado que inevitavelmente perdeu, surge a tentação do “entrismo”; um galicismo que significa entrar nas fileiras do “outro” para “convertê-lo” desde dentro.
O exemplo que nos é constantemente e cansativamente proposto é a conversão do Império Romano, mas sejamos claros quanto às diferenças: aquele monstro não foi confrontado com pusilanimidade, mas com martírio; e, em segundo lugar, a modernidade não é uma civilização pagã: é a nossa derrota, a nossa deserção. É a corrupção de uma civilização. De certa forma, não há outro, mas nada, apenas os nossos próprios vícios. Deve-se esclarecer que essa é uma derrota moral que se cristalizou em estruturas contrárias à sua própria moralidade, mas construídas sobre a mesma casca. Isso dá a impressão de que ainda estamos mais ou menos inseridos no Ocidente cristão e que a moralidade permanece mais ou menos a mesma, de modo que, às vezes, parece que uma mudança de rumo poderia corrigir as coisas. Toda a questão gira em torno de estabelecer se este é um momento de declínio para a civilização ou algo bem diferente, que é precisamente o que constitui heresia, e não, como se diz atualmente, uma questão de irmãos dissidentes (a menos, é claro, que estejamos falando de Abel e Caim).
Partindo de um certo e discutível “nós” diminuído, o “entrismo” intenta o que tem sido chamado de “derivativo moralizador”, ou seja, a transformação a partir de dentro dessas estruturas, como efeito de uma “colaboração resistente” fundada nas “boas intenções” do outro, e partindo do pressuposto de que uma certa exigência moralizante, imposta e proclamada mundialmente diante do colapso político e financeiro do sistema, poderia significar um retorno à moralidade cristã, ou pelo menos uma desaceleração momentânea no processo de desintegração da civilização. Essas boas intenções devem ser atribuídas tanto ao “esforço moralizador” proposto pelo sistema quanto ao entrista que, leal e sinceramente, contribui com as suas próprias.
O sistema de infiltração apresentado aos bem-intencionados começa explorando os princípios da tolerância, da não discriminação, dos direitos do homem e da aceitação das diferenças mínimas de opiniões; ou seja, aproveitando-se das contradições dentro da ideologia liberal que se orgulha da sua amplitude de critérios e usando o fundamento cristão que sustenta suas ideias como fermento. Sabemos, com certa astúcia, que todo homem de alto escalão, politicamente correto e com formação cultural ocidental deve ter um amigo que seja crente, judeu, de direita, de esquerda, indígena, imigrante e, evidentemente, gay; e isso porque ele é um pouco crente, um pouco judeu, de direita, de esquerda, indígena, imigrante e gay. Desde a perspectiva de ser o crente aceito, surge uma fonte inesgotável de relações forçadas, envolvendo esse aspecto fragmentado da personalidade do homem politicamente correto, que pode se traduzir em posições a partir das quais se inicia a tarefa de moralização. E isso é feito sem qualquer escrúpulo em relação à própria consciência, já que todos somos “coerentes”. O amigo religioso é aceito porque é muito crente, o amigo judeu porque pode ser qualquer coisa (o que, no caso dele, é ser coerente), o de direita é firmemente de direita, o de esquerda é firmemente de esquerda, e o último é extremamente inflexível.
Dito isso, é preciso oferecer algo em troca. É preciso ter carisma. Uma especialização, habilidades de liderança; escrever, cantar, dançar ou pintar bem; que tipo inteligente e capaz! Nenhuma pessoa que se preze pode ter um amigo feio, mau e sujo. Deixe-me corrigir o que disse: A menos que, nessas ditas qualidades, você tenha alguma preeminência no grupo e seja o líder dos maus, feios e sujos.
Existem os promotores e os detratores do movimento. Os primeiros trazem à tona a base cristã que é preservada e serve como ponto de partida para a atividade. Estes últimos argumentam que essa casca humanista é propriamente o pecado de Lúcifer. E a questão torna-se interminável. Os bem-intencionados e os mal-intencionados entram em conflito. O “entrismo” é um apostolado? ...ou exatamente o oposto?
Nessa síntese política entre democracia e meios de publicidade em massa que forma o atual regime de poder, o entrista deve escolher um desses setores para realizar seu apostolado. “Os meios e a fé cristã. Dois universos a conciliar”, de Guy Marchessault, e, mais recentemente, “O Grande Mal-entendido: A Igreja Perdeu a Cultura e os Meios?”, de Frédéric Antoine. Eles representam o entrismo da França católica de melhor intenção que visam, evidentemente, penetrar nos meios. “Meios? Onde está o mal-entendido?!”, pergunta-se Bernard Dumont em um artigo perspicaz.
Embora inicialmente quietos e tímidos, muitos acolheram os ventos moralizantes trazidos pela democracia e acumularam antecedentes em torno de certos candidatos, falando de sua competência, moralidade ou altruísmo, tudo na esperança de garantir-lhes posições que lhes permitissem irradiar suas qualidades transformadoras. Desde a cultura, do meio ambiente, da polícia, do sistema esgotosférico, dos meios de propaganda, do judiciário, do “exercício leal da profissão liberal” (epa!), do empresariado (Opus Dei!), ou qualquer outro rincão que os aceite, sempre de mãos dadas com algum lobby católico que os publicita e catapulta. Além disso, argumentos teológicos, que não são novidade, não faltaram.
Quando Carl Schmitt foi levado aos julgamentos de Nuremberg por sua participação como jurista do sistema nacional-socialista, ele não apenas estabeleceu o termo “resistência por meio da colaboração” para sua defesa, mas também escreveu um livro — “Ex captivitate salus” — onde concede o status de obrigação cristã ao entrismo em oposição a um “Cristianismo Efêmero” que aceita sua derrota (e que ele personifica em Tocqueville), e se descreve (usando a expressão de São Paulo) como um “katechón”, alguém que impede a vitória total do mal e “se proíbe de desesperar”, deixando a impressão de que, se não fosse por ele, as coisas poderiam ter sido piores. As más línguas dizem que, se o Eixo tivesse vencido, ao retornar para casa de sua posição segura no Tribunal Internacional, imposta pelo novo regime, ele teria assobiado Deutschland über alles: Alemanha acima de tudo. Não foi assim... e, como disse Céline, ele trocou a saudação com a mão direita erguida por duas mãos no ar e, diante da debacle total, não teve escolha a não ser se reconhecer como um observador distante dos eventos que devastavam uma era. Quase no fim, escreveu esta frase de profundo pessimismo político, mais no estilo de Tocqueville: “Permanecendo em silêncio..., nos consagramos a nós mesmos e à nossa origem divina”. Muito Germânico. Um latino-americano teria dito: “Praguejando...” e o resto seria igual.
Como se pode ver, a questão não é regional nem exclusiva. Frédéric Lordon escreveu um livro sobre essa tendência na Europa: “E a virtude salvará o mundo: Após o desastre financeiro, salvação através da Ética?”, e discorre contra o “entrismo” em seu capítulo “O inferno das estruturas ou a inanidade do moralismo”, no qual estabelece — segundo seu método sociológico — como uma lei necessária que o derivativo moralizador é uma espécie de colírio que obscurece o fato óbvio de que, em um sistema, e seguindo sua própria lógica, os agentes não fazem nada além do que as forças do campo em que estão inseridos os levam a fazer. Ao comentar a expressão, Dumont a considera abrupta, mas reconhece seu mérito em deixar de lado as objeções bizantinas de consciência a respeito do entrismo — a obrigação de não desesperar ou o cristianismo efêmero — para responder com total clareza e praticidade às “esperanças” de “transformação desde o interior” fundadas unicamente em boas intenções.
Lordon me convence. Os romanos já diziam que os senadores são pessoas boas, mas o Senado é uma Besta. Mesmo assumindo o estado puro das intenções (algo que repugna minha malícia congênita), a abordagem parece inadequada, especialmente nos campos em que a economia desempenha um papel decisivo, visto que, como afirma Lordon, “...a teoria econômica padrão se preocupa em construir seu objeto separando-o de tudo que não seja a busca pela lucratividade — especialmente considerações morais”. Mas também é inócua nas esferas difusas da cultura e da intelectualidade, estatal ou privada, onde a obtenção de uma clientela mínima é necessária. Para uma existência “sustentável” e justificável, é preciso competir com o extraordinário ataque que emana dos meios de comunicação, o que nos leva necessariamente aos argumentos dos autores citados acima: a entrada na mídia; um caminho inevitável para todos aqueles que desejam exercer a menor influência. Mas esse setor, mais do que qualquer outro, é invadido pela economia. (Qualquer pessoa que tenha tido a experiência de trabalhar em um meio de comunicação por um curto período sabe que o único ato condizente com uma pessoa de boa fé é dinamitar a imprensa. E se o derivativo moralizador não é muito forte, esvaziar suas poupanças é aceitável.)
Nos anos setenta (que estão na moda agora), alguns de nós tínhamos plena consciência de que participar de assembleias e grupos estudantis significava ou boicotá-los ou ser arrastado pela imbecilidade adolescente que formava a maioria. Mas eles eram trotskistas... agora são moralistas. Infiltração ou boicote? Que o temperamento decida. Ser sincero sobre “as próprias ideias” e influir desde seu pequeno ambiente... ou ser malicioso para deixar um presente grego? No que me diz respeito, não sou bom na primeira opção, já que não sou brilhante nem moralizante, e por causa do meu hábito de praguejar... ninguém me quer no próprio grupo; e quanto à segunda, agora que meus dias de juventude, quando me divertia interrompendo assembleias, acabaram, toda vez que me lembro do personagem de Conrad em O Agente Secreto, explodido por sua bomba caseira nos jardins do Observatório de Greenwich, perco toda a vontade. Talvez seja porque já não sou adolescente, ou talvez sempre tenha achado a ideia de ser um infiltrado ignóbil, e embora tenha perdido a oportunidade de uma verdadeira carga de cavalaria, restou-me, como Gallardo, um sentimento de camaradagem nascido da nostalgia. (Um brinde aos meus camaradas daquelas campanhas — que jamais empreenderei em minha vida...).
Todo o cuidado que se pode ter neste momento é direcionado (Deus me livre!) a evitar uma situação como a de Carl Schmitt e um dia ter que oferecer desculpas bastante rebuscadas — e com cheiro de esgoto — ao promotor de plantão. Quanto à sua declaração final, por mais que a detestemos, depois de colaborar ou praguejar, chegará o momento de nos calarmos e nos dedicarmos a nós mesmos, à nossa Origem e ao nosso Destino. Enquanto isso, o boi solto lambe as feridas. Deus segue vivo. E enquanto eu tiver algumas moedas no bolso (que consegui encontrar), voltarei para casa assobiando uma canção... que não lhes importa.
Fim.
Publicado originalmente no site Argentinidad.
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