Nem Ário nem Atanásio
Os semiarianos do século XXI (postagem extra na semana)
“The Semi-arians attempted a middle way between orthodoxy and heresy, but could not stand their ground”
Cardeal John Henry Newman (1801-1890)
1. Introdução
Há um certo grupo de católicos que, não humildemente e aproveitando-se sofisticamente da clássica definição de virtude1, coloca-se como o caminho certo entre dois desvios do pós-Concílio Vaticano II. Eles se veem como uma bela montanha cercada por dois precipícios, os quais podemos resumir da seguinte maneira:
De um lado, os modernistas/progressistas, que dizem: “ainda bem que a Igreja mudou” — celebram a ruptura.
Do outro, os tradicionalistas: “infelizmente a Igreja mudou” — lamentam a ruptura.
Para nos salvar desses dois grupos, eis então que vem o “conservador” católico ou, como alguns desse grupo costumam se autointitular, continuístas. Estes, como cavaleiros brancos em armadura reluzente, apresentam sempre os defeitos dos dois lados e, como bons vendedores, colocam-se como a solução verdadeiramente católica. Nem o apego a um passado cristalizado, dizem, nem a tempestade revolucionária.
Não nego que o sofisma tenha seu apelo, caso contrário seus vários fautores não estariam cercados de seguidores de rede social (não que essa métrica signifique algo além de mais problemas para suas almas no Juízo, mas enfim…).
Essa linha de pensamento conservadora considero conveniente colocá-la como análoga aos semiarianos do século IV. Como seus contrapartes dos primórdios da Igreja, os conservadores/continuístas não suportam aquilo que consideram extremos: de um lado, Ário e seu progressismo atroz (a ponto de explodir suas entranhas), e do outro o excomungado bispo Atanásio, outro radical excessivo que lutou quase sozinho contra o mundo ariano inteiro.
Não se pode tolerar por tanto tempo dois homens tão extremos e tão convictos — precisamos de um meio-termo: nem Ário e sua ideia de “substância diferente” (heteroousios) e nem Atanásio com seu “de mesma substância” (homoousios), que aos ouvidos desses proto-conservadores soava como alguma heresia cristológica. Era preciso então forjar um novo termo: homoiousios, “de substância parecida”, ou seja, Cristo teria uma “substância parecida” com a de Deus Pai e assim estaria resolvido, em um astuto meio-termo, essa briga que já se prolongava entre o “diferente” e “igual”. Um só iota (ι) em “homo” (igual) e temos “homoi” (parecido), e assim os semiarianos não tomaram mais partido nessa selva de convicções, salvaguardando desta maneira uma capa de catolicidade e segurança sem por isso cair no “hetero”. Nem “homo” e nem “hetero”, senão que o semiariano é um “homoi”.
É no mesmo espírito dos semiarianos que nossos contemporâneos conservadores abraçaram o discurso à cúria do Papa Bento XVI em 22, de dezembro de 2005, como seu norte na luta contra os tradicionalistas de hoje (2026). Nesse discurso, propôs o papa uma hermenêutica da reforma na continuidade ou simplesmente “hermenêutica da continuidade”, que não é propriamente Magistério (como quase nada é desde 1965), mas um exprimir-se “de modo novo” sobre uma quantidade de tópicos: relação entre a Igreja e a era moderna, relação entre fé e ciências modernas, relação entre a Igreja e o Estado moderno, etc. Então não se trata mais de dizer, por exemplo, que o Concílio Vaticano II (1962-1965) foi uma ruptura com os dezenove séculos anteriores e seus respectivos concílios, mas sim que ele (e sua posteridade) disse “de modo novo” para uma plateia nova2 aquilo que sempre disse a Igreja.
Assim, para darmos um exemplo introdutório, quando o Concílio Vaticano II aprova a Declaração Dignitatis Humanae (DH) sobre a liberdade religiosa, ele não estaria contrariando as Escrituras (Salmo 96, 6 ou 1Coríntios 10, 20) ou praticamente a totalidade do Magistério anterior ou mesmo a vida dos santos mártires, que literalmente morreram por serem contra a liberdade religiosa.
De modo novo, os conservadores têm a gentileza de explicar que, em vista das novas relações com um Estado moderno tão diferente da pátria antiga, não podemos aplicar as mesmas categorias que se aplicavam antes, daí o dizer a seguir, que por mais estranho que possa parecer, terá de ser explicado nos termos da “hermenêutica da continuidade”:
“Este Concílio Vaticano declara que a pessoa humana tem direito à liberdade religiosa. Esta liberdade consiste no seguinte: todos os homens devem estar livres de coação, quer por parte dos indivíduos, quer dos grupos sociais ou qualquer autoridade humana; e de tal modo que, em matéria religiosa, ninguém seja forçado a agir contra a própria consciência, nem impedido de proceder segundo a mesma, em privado e em público, só ou associado com outros, dentro dos devidos limites.” (DH §2)
Leia e releia este trecho e tente entender como esse escrito pode sincronizar com tudo que veio antes. O conservador consegue, mesmo que a despeito da lógica. Comentaremos essa questão mais abaixo (tópico 2.2).
É, enfim, em vista desse modo conservador/continuísta de ver as coisas que vou comentar um vídeo recente.
Trata-se do vídeo “O maior ERRO dos modernistas e dos tradicionalistas - A verdade sobre o Concílio Vaticano II”, de Rafael Brodbeck, postado em 17 de julho de 2026, e que não ironicamente colocou-se na imagem ilustrativa do vídeo um Ário e um Atanásio contemporâneo: de um lado Leonardo Boff (1938-) e do outro Mons. Marcel Lefebvre (1905-1991).
Fosse ele um sacerdote, eu não escreveria e nem diria nada sobre esse vídeo, pois um leigo sempre perde na disputa pública com um sacerdote:
Se o leigo está com a verdade e derrota o sacerdote, a dignidade sacerdotal sai ferida perante os mais fracos, que não conseguirão distinguir o sofisma do padre da sua ordem sagrada. Assim não sai como mentiroso o CPF, mas o padre ou bispo.
Se o leigo está com a verdade e é derrotado pelo sacerdote, ele prestou um desserviço à verdade e conferiu, diante dos mais fracos, dignidade ao erro e, por ele ter sido proferido (e sido vencedor) por um sacerdote, muitos dos fracos se aferrarão ao erro para sempre.
Autoridade é serious business demais, e um leigo, salvo por ordem de um reto bispo ou sacerdote, jamais deveria se meter a debater publicamente (ou seja, perante as massas) de igual para igual com um padre, salvo para defender-se a si mesmo e aqueles sob sua responsabilidade contra calúnias, difamações e mentiras, e mesmo assim com muita cautela, preservando as regras da Caridade e da correção fraterna3. Quem leu o Diálogo de Santa Catarina com Deus Pai sabe como Ele não gosta que se mexa com seus sacerdotes (isso inclui os ruins).
Mas Brodbeck não é sacerdote e muito provavelmente nem lerá este texto (o que, honestamente, me poupa a fadiga), então sigamos. Desta vez não vou fazer o texto a modo de “react”, mas antes um comentário geral dos tópicos abordados. Aqui não se trata um caso “urgente”, como o do Dr. Juliano Mello, que saiu do meio tradicionalista proferindo mentiras em grau cavalar, mas sim de alguém que já está há décadas na mesma posição, tal como ele mesmo afirma no vídeo. Podemos, assim, fazer algo mais estruturado e tempestivo.
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2. As sagrações episcopais da Fraternidade Sacerdotal São Pio X: escândalo para os conservadores
2.1 Um breve percurso ao longo de um termo problemático

É no contexto pós-sagrações episcopais realizadas pela FSSPX, em 01 de julho de 2026, que vamos tratar o vídeo de Brodbeck.
Ele começa sua exposição exatamente como comecei a introdução: colocando sua visão de mundo como o meio-termo virtuoso entre dois grupos (radicais tradicionalistas e modernistas) que chegam a uma mesma conclusão histórica, mas tomam atitudes diferentes.
Certamente esse vídeo não existiria se não fosse a Declaração de 02 de julho do Dicastério para a Doutrina da Fé, dizendo que não só os seis bispos (sagrantes e sagrados), mas também padres, leigos de Ordem Terceira e aderentes formais da posição, estão excomungados4. Embora a estapafúrdia declaração seja considerada confusa mesmo por opositores da Fraternidade São Pio X5, ela não deixou de ter uma boa recepção entre grupos que compartilham da visão de Brodbeck: é um longo desejo realizado de serem eles os guardiães da fé católica integral, bem como a única “oposição” autorizada. Como Brodbeck mesmo disse, é frequentador de missa nova, mas preferiria que tivesse só Missa Tridentina.
Para sustentar sua tese de meio-termo virtuoso, Brodbeck dá um exemplo mostrando que tanto modernistas quanto tradicionalistas cometem o mesmo erro de leitura ao interpretar a expressão “a Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica” (Lumen Gentium 8): ambos, segundo ele, leem a troca do verbo est (é) por subsistit (subsiste) como uma ruptura doutrinária — uns para comemorar, outros para lamentar. Para desfazer essa leitura, ele recorre a uma reflexão metafísica de um sujeito cujo nome, por higiene textual e mental, me recuso a reproduzir aqui; essa reflexão é apoiada na distinção aristotélico-tomista entre substância e acidente: só a substância propriamente subsiste; os acidentes apenas existem em algo. Sendo assim, ao dizer que a Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica, o Concílio não estaria enfraquecendo a identidade entre as duas, mas reforçando-a — afirmando que a Igreja de Cristo existe ali concreta, plena e substancialmente, e não como um mero conjunto disperso de elementos entre denominações. Para Brodbeck, subsistit teria, portanto, peso metafísico igual ou maior que est, e a escolha do termo seria apenas um refinamento filosófico, não uma mudança de conteúdo — no mesmo espírito de como Niceia cunhou homoousios sem por isso inventar doutrina nova sobre a Trindade. Entretanto, como seus antecessores, não ironicamente ele entende a confusão que o termo homoousios causou à época.
A partir daí, ele reforça sua leitura invocando a autoridade magisterial: afirma que a Declaração Dominus Iesus (2000) e a Resposta da Congregação da Doutrina da Fé em 2007 (ambas escritas por Ratzinger, primeiro como cardeal, depois como papa) já deram a interpretação “categórica” e “definitiva” da expressão, encerrando qualquer margem de dúvida. Seu refrão é que, diante disso, “não tem mais choro”: quem ainda enxerga ambiguidade ou ruptura no subsistit in estaria ignorando que a própria Igreja já interpretou a si mesma de modo autorizado e irrevogável.
Mas há um detalhe que o próprio Brodbeck deixa de lado, e que vem justamente de quem ele cita como autoridade máxima. Em fevereiro de 2000 (mesmo ano da Dominus Iesus, da qual seria o autor principal como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé), o Cardeal Ratzinger proferiu uma conferência sobre a eclesiologia da Lumen Gentium onde afirmou, sem rodeios: “Todo o problema ecumênico se esconde na diferença entre subsistit e est”6. Note-se bem: não disse que a diferença é irrelevante, um mero refinamento filosófico, mas sim que nela se esconde todo o problema ecumênico. E o então cardeal foi ainda mais longe no mesmo colóquio, num trecho que qualquer continuísta preferiria não ter lido: “A diferença entre subsistit in e est encerra o drama da divisão eclesial (...) não se pode, em última análise, resolver plenamente, do ponto de vista lógico, essa diferença entre subsistit e est”7.
Ora, se o próprio redator da Dominus Iesus reconhece, no mesmo ano de sua publicação, que a diferença entre os dois verbos não se resolve logicamente, com que autoridade Brodbeck nos assegura que “não tem mais choro”, que a questão está “categoricamente” fechada? O “drama” que Ratzinger admite existir é precisamente aquilo que ele, sete anos depois, tenta apaziguar com a Resposta de 2007 — o que já denuncia, pela repetição do esforço, que a suposta clareza de 2000 não convenceu nem a própria Cúria. Mas desta vez o autor do vídeo remata: agora sim, depois de 2007 “não tem mais choro”.
E aqui cabe uma observação que, ainda que aceita por Brodbeck, ele não tira todas suas conclusões: qual é, afinal, o peso magisterial desses textos? Nem a Dominus Iesus (usada pelo autor como palavra final na questão do subsisit in) nem a Resposta de 2007 se apresentam como definições dogmáticas, nem sequer como atos do magistério ordinário no sentido pleno. São, em sua própria autodescrição, uma declaratio e uma responsa ad quaestiones, ou seja, esclarecimentos, respostas a dúvidas levantadas, exercícios de diálogo doutrinal, não solenes profissões de fé nem confirmações irrevogáveis de uma verdade já definida com clareza suficiente. É o próprio gênero do documento pós-conciliar que atesta o problema: quando antes a Igreja precisava simplesmente ensinar, ela definia; quando precisa esclarecer (repetidamente, a cada geração, sobre o mesmo ponto) é porque o texto original não ensinou com a clareza que se alega. Uma dúvida que precisa ser respondida duas vezes em sete anos, por documentos que não pretendem gozar da autoridade de uma constituição dogmática ou que seja uma manifestação do magistério ordinário que reforça o já ensinado, não é prova de que “a Igreja já disse tudo”. É prova do contrário: de que o próprio magistério, na sua forma pós-conciliar mais frequente, abdicou de ensinar com a autoridade que reivindica ao mesmo tempo que insiste em já ter ensinado. Não estamos falando simplesmente de “magistério pastoral” (pois toda pastoral é guiada pelo dogma), mas sim de uma recusa habitual por parte da hierarquia de exercer uma autoridade que possui.
Não cabe aqui, ademais, prosseguirmos uma discussão sobre o subsistit in, pois ambos não somos teólogos e muito menos sacerdotes. Não se trata da nossa parte sermos Igreja docente, mas sim discentes, ainda que o Concílio tenha, em parte, manchado essa distinção com suas confusas colocações. E muito menos cabe o autor do vídeo dizer que é simplesmente impossível que em apenas vinte anos a Igreja tenha ido da concepção de Mystici Corporis Christi (1943), afirmando que a Igreja católica é a Igreja de Cristo, para Lumen gentium (1964), onde a Igreja católica subsiste na Igreja de Cristo. A sua suspeita de inverosimilhança (uma mudança brusca em um prazo de uma geração) não prova nada. Há evidentemente uma mudança de eixo nessa nova concepção que até Johannes Dörmann (1922-2009), teólogo não exatamente tradicionalista e tampouco identificado como mero modernista, reconhece:
Segundo a compreensão tradicional, a unidade da fé é destruída pela heresia, a unidade da comunidade pelo cisma. A unicidade e a unidade da Igreja eram entendidas de modo absoluto e exclusivo (extra ecclesiam nulla salus). Precisamente esta exclusividade quer a Declaratio superar mediante uma nova e modificada inclusividade.(…)
Assim viu também a Tradição: ela ensinou decididamente a necessidade universal da Igreja para a salvação (extra ecclesiam nulla salus), mas concedeu ao mesmo tempo que também os homens que de fato (actu) não pertencem à Igreja podem alcançar a salvação, se se encontrarem numa ignorância invencível da verdadeira religião. Neste caso, a pertença atual à Igreja pode ser substituída pelo desejo (votum) dela. Com isso, a possibilidade de salvação fora da Igreja visível é transferida para a consciência do homem singular e diz respeito à relação mais íntima entre Deus e a alma, que por si mesma está subtraída a toda ulterior penetração teológica.(…)
A posição da Igreja católica está pré-dada no dogma e é essencialmente descrita já no título da Declaratio: Dominus Iesus — De Iesu Christi atque Ecclesiae unicitate et universalitate salvifica. Com isso, levanta-se uma pretensão à absolutidade.
Deste ponto de vista absoluto, a Igreja conciliar olha com alta estima para as outras religiões. Estas são, na perspectiva da Declaratio, para os seus seguidores, verdadeiros meios da salvação, caminhos de salvação legítimos, que, em razão das semina Verbi nelas presentes, apontam e conduzem para Cristo. Tal apreciação das religiões não-cristãs não se pode fundamentar nem na Sagrada Escritura nem na Tradição.8
Veja o leitor que não é eu, o “radtrad gnóstico/saudosista”, tal como Brodbeck e seu grupo nos rotula, quem está dizendo que o subsistit in não tem eco na Tradição anterior, mas sim o conceituado e nada marginal teólogo Johannes Dörmann, doutor em teologia (1963) sob os auspícios de Joseph Ratzinger.
Trocou-se a clássica exclusividade (fora da Igreja católica não há salvação) por inclusividade (as outras religiões possuem meios incompletos de salvação — dito de modo vago quanto a quais são esses meios e quem exatamente os possui, conforme destaca o mesmo Dörmann).
2.2 Uma hermenêutica sem eco na Tradição: um conjunto de continuidade e descontinuidade
Mas o subsistit in é apenas o produto daquilo que subjaz nos dizeres de Brodbeck. O vídeo apoia toda a sua tese de fundo — “não houve ruptura no Concílio e sua posteridade, houve desenvolvimento homogêneo da doutrina” — na dupla autoridade do Cardeal John Henry Newman (1801-1890) e do discurso de Bento XVI à Cúria Romana de 22 de dezembro de 2005. É o mesmo e respeitável duo sustenta hoje quase todo o edifício “continuísta”: Newman fornece a categoria filosófica (o desenvolvimento que não muda a substância, apenas a aprofunda), e Ratzinger fornece a suposta canonização magisterial dessa categoria como “hermenêutica da reforma”. Convém perguntar, então, se essas duas fontes sustentam mesmo o caso conservador-continuísta.
Comecemos por Newman. Que conste antes de tudo que é um homem sem heresias em seus escritos católicos e que foi elogiado por ninguém menos que São Pio X9. Entretanto, sua doutrina da consciência que serve de matriz ao personalismo teológico que serve de base a certas atitudes dos conservadores (doutrina essa que, segundo o próprio Bento XVI, tornou-se “o fundamento daquele personalismo teológico que atraiu a todos nós com encanto”10) não nasceu de uma reflexão especulativa serena sobre a natureza do juízo moral, mas de um apuro político concreto: a carta ao Duque de Norfolk, de 1874-75, resposta ao ataque de Gladstone, que acusava os católicos ingleses de deslealdade à Coroa por obedecerem primeiro a Roma. A fórmula que ficou célebre: brindar “à Consciência primeiro, e ao Papa depois”, foi, como nota Dardo Juan Calderón em polêmico artigo, uma saída de emergência para salvar posições, propriedades e respeitabilidade social num país protestante e maçônico, não uma doutrina decantada a frio11. E o próprio Newman, sentindo o perigo de ter aberto uma porta para a pura imanência, tentou fechá-la duplicando o conceito: uma consciência que “apenas forma uma espécie de intuição”, e outra que é “o eco da voz de Deus” — mas nunca conseguiu, nota Calderón, sair inteiramente do círculo, pois manteve sempre a consciência como instância anterior à Igreja, que a Igreja apenas “corrige” depois de constituída, e não como algo que só existe formado por ela12. Isso nos leva a outras observações:
O Padre Émile Baudin (1875-1949), professor de filosofia no Collège Stanislas, no Instituto Católico de Paris e na Faculdade de Teologia Católica de Estrasburgo, é o autor deste magistral estudo que faz um balanço sobre “A Filosofia da fé em Newman”. O ponto de partida da reflexão de Newman, o problema que ele levanta, não é uma dificuldade abstrata, a dificuldade colocada pela possibilidade e pela natureza do ato de fé teologal tomado como tal. É um fato. É o próprio fato da crença de Newman. Por isso, trata-se de prestar conta. E Newman presta contas constatando que sua fé é uma adesão (um “assent”) e não o resultado de uma dedução racional ou de uma inferência. A fé é, assim, uma adesão real e, como tal, se opõe a uma adesão que seria puramente lógica ou científica. Essa adesão tem seu instrumento, de um tipo novo como ela: é o illative sense, um sentido intelectual, distinto da simples compreensão de um argumento científico, e que o ultrapassa. É o sentido da inteligência que adivinha a verdade. Esse sentido intelectual fundamenta a crença. A teoria geral da crença desenvolvida por Newman a partir do fato de sua própria crença inspira-lhe então uma psicologia da fé, uma apologética e uma teologia das relações entre fé e razão. Do ponto de vista da psicologia da fé, ou seja, do mecanismo pelo qual o ato de fé é produzido pelas faculdades da alma, o illative sense adivinha a verdade à medida em que é fruto de disposições morais. A salvaguarda da fé é, então, uma boa disposição do coração e o illative sense é um sentido moral, que, como tal, escapa ao controle da razão raciocinante. A apologética não é mais parte da ciência teológica; é uma arte de silenciar a razão para deixar falar o senso moral. Finalmente, quanto às relações entre fé e razão, a primeira se opõe à segunda como uma faculdade de intuição e ação a uma faculdade de análise e especulação.13
Foi exatamente essa ambiguidade não resolvida, e não a suposta clareza que Newman teria alcançado, que Ratzinger tomou como fundamento explícito do seu personalismo, numa conferência em Dallas em 1978, muito antes de ser papa. Isso teria reflexos no futuro quando o mesmo Ratzinger tornou-se papa e ampliou ainda mais a sua já grandíssima influência.
Ora, esse princípio dúbio adotado pelos continuístas é a mesma estrutura que já vimos no caso do subsistit in: uma ambiguidade constitutiva, nascida de uma necessidade não exatamente teológica (ali, o ecumenismo, como admitiu o próprio Cardeal Ratzinger; aqui, a sobrevivência política de uma minoria católica), que depois é apresentada, décadas mais tarde (como, por exemplo por Brodbeck), como profundidade filosófica consolidadora da continuidade com a tradição.
Mas há algo mais preciso a fazer aqui do que discutir a biografia de Newman: podemos aplicar o seu próprio critério. No capítulo cinco de “An Essay on the Development of Christian Doctrine”14, obra-mãe de alguns continuístas (ainda que pareça que alguns não tenham lido ou que prefiram um Newman retalhado), o autor não deixou o “desenvolvimento legítimo” da doutrina como categoria vaga. Ele estabeleceu sete notas para distinguir o genuíno desenvolvimento de uma doutrina das corrupções. Seu ponto de partida, para extrair sete notas é a analogia com a física constitutiva dos corpos vivos15:
Preservação do Tipo
Continuidade de Princípios
Poder de Assimilação
Sequência Lógica
Antecipação de seu Futuro
Ação Conservadora sobre seu Passado
Vigor Crônico
A sexta nota, Ação Conservadora sobre seu Passado, exige que um desenvolvimento genuíno seja “uma adição que ilumina, não obscurece; corrobora, não corrige, o corpo de pensamento do qual procede”; e cita, como padrão desse teste, São Leão Magno: “Descobrir o que já foi revelado, reconsiderar o que já foi concluído, rasgar o que foi estabelecido: que é isso senão ingratidão pelo que já foi obtido?” Ora, é o próprio Cardeal Kasper quem nos diz que, no Concílio, “o subsistit in substituiu o anterior est”16 — a palavra usada é “substituiu” (substituiu, não aprofundou, não iluminou). Pelo próprio critério newmaniano, isso já é o vocabulário da corrupção, não do desenvolvimento: o texto se apresenta explicitamente como troca, não como elucidação do que já estava lá. Usando as palavras leoninas, poderíamos dizer que, no mínimo houve uma “reconsideração do que já fora concluído”.
A segunda nota, “Continuidade de Princípios”, distingue entre doutrinas (que mudam de expressão) e princípios (que devem permanecer fixos sob qualquer expressão nova). Mas o princípio em jogo aqui — que a Igreja católica é, simpliciter, a Igreja de Cristo, e que fora dela não há meios institucionais e coletivos de salvação — não é uma doutrina acidental, mas sim o princípio formal de toda a eclesiologia pré-conciliar. Trocar esse princípio por outro (o de uma “Igreja de Cristo” mais ampla que a Católica, subsistente nela mas presente por “elementos” fora dela) não é desenvolver uma doutrina sob o mesmo princípio, mas adotar um novo princípio. E, como o próprio Newman escreve, “o desenvolvimento fiel deve reter tanto a doutrina quanto o princípio com que começou”. Recomendo vivamente que o leitor leia o artigo “O subsistit in e a nova concepção de Igreja” e diga se realmente manteve-se um princípio de conservação ou corrupção (link para quem odeia nota de rodapé: https://catolicosribeiraopreto.com/o-subsistit-in-e-a-nova-concepcao-da-igreja/).
E, por fim, há uma ironia para a situação dos conservadores atuais, pois o próprio texto de Newman nos oferece, ao ilustrar como partidos intermediários fracassam por falta de substância própria, o próprio exemplo dos semiarianos, que se parecem muito com os conservadores/continuístas de hoje (2026): “tentaram um meio-termo entre a ortodoxia e a heresia, mas não conseguiram sustentar sua posição; por fim, uma parte caiu no macedonianismo, e outra se uniu à Igreja” (é o texto da nossa epígrafe). O autor que Brodbeck invoca para legitimar seu meio-termo classifica esse mesmo tipo de meio-termo da continuidade na reforma, quando aplicado à crise ariana, não como síntese virtuosa, mas como sintoma de corrupção, ou seja, a ausência daquilo que Newman chama de “poder de assimilação” que só as ideias verdadeiramente vivas possuem.
E é tão real essa analogia, que podemos extrair do próprio texto do discurso de 2005 algo interessante. Brodbeck cita a “hermenêutica da reforma” como se ela afirmasse pura e simplesmente a continuidade, contra a “hermenêutica da ruptura” (“radtrad”/modernista). A afirmação vem como uma espécie de reforço da segunda nota de Newman. Mas a fórmula literal do Papa Bento XVI é outra, e bem mais comprometedora para os fins dessa corrente: “É exatamente neste conjunto de continuidade e descontinuidade a diversos níveis que consiste a natureza da verdadeira reforma”17. Então, pelo próprio discurso, não se trata de impor aos tradicionalistas e modernistas uma “hermenêutica de ruptura” e aos conservadores/continuístas uma virtuosa “hermenêutica da continuidade” a modo de meio-termo virtuoso, mas sim imputar aos modernistas uma “hermenêutica da ruptura” e aos conservadores/continuístas “um conjunto de continuidade e descontinuidade a diversos níveis”, tal como é exatamente essa leitura que fazem do subsisit in: há algo de contínuo com o que vem de antes e que pode conversar com a Igreja ad intra sem ferir suscetibilidades, mas há também algo de inovação e não-católico para que se converse ad extra no diálogo ecumênico.
E mais adiante, tratando precisamente da liberdade religiosa, assunto que tratamos no começo e deixamos para agora, o Papa Bento XVI fala algo um tanto novo, para dizer o mínimo:
O Concílio Vaticano II, com o Decreto sobre a liberdade religiosa, reconhecendo e fazendo seu um princípio essencial do Estado moderno, recuperou novamente o patrimônio mais profundo da Igreja. Ela pode ser consciente de encontrar-se assim em plena sintonia com o ensinamento do próprio Jesus (cf. Mt 22, 21) como também com a Igreja dos mártires, com os mártires de todos os tempos. A Igreja antiga, com naturalidade, rezou pelos imperadores e pelos responsáveis políticos considerando isso seu dever (cf. 1 Tm 2, 2); porém, enquanto rezava pelos imperadores, recusou-se adorá-los, e com isto rejeitou claramente a religião do Estado. Os mártires da Igreja primitiva morreram pela sua fé naquele Deus que se revelou em Jesus Cristo, e exatamente por isso, morreram também pela liberdade de consciência e pela liberdade de profissão da própria fé uma profissão que por nenhum Estado pode ser imposta, porém pode ser realizada somente com a graça de Deus, na liberdade da consciência.18
O filósofo Paolo Pasqualucci, analisando esse mesmo discurso e sua relação com a Declaração Dignitatis Humanae, mostra que a “continuidade” nesse caso invocada por Bento XVI, ou seja, a de que os mártires primitivos, ao recusar o culto ao imperador, já estariam testemunhando pela “liberdade de consciência” no sentido moderno, não está em acordo com os próprios Atos dos Mártires e dos Apologistas. Santa Perpétua, ao recusar vestir trajes pagãos antes do martírio, não reivindicava um direito universal de culto igual para todas as religiões, mas sim o direito de morrer sem ser forçada a um ato de apostasia. Tertuliano, ao denunciar que se negava aos cristãos o que se concedia a todo culto egípcio ou sírio, não defendia a igualdade ou liberdade de todos os cultos perante o Estado, mas a superioridade exclusiva da única religião verdadeira19. Bento XVI, no melhor espírito de “continuidade e descontinuidade” faz uma leitura retroativa e atribui a categoria moderna de “liberdade religiosa” projetada sobre homens que morriam exatamente pela convicção contrária: a de que fora da fé verdadeira não há salvação alguma.
Caso alguém duvide que Pasqualucci esteja com a razão, sugiro a leitura de dois textos (clique nos links):
Papa Leão XIII - Encíclica “Diuturnum illud”, sobre a origem do poder civil.
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3. Tentativa de conclusão
Ainda teria muitos pontos a abordar sobre esse vídeo, como por exemplo aquele em que Brodbeck faz uma história da má recepção dos concílios e as heresias que surgiram depois. A ideia desse excurso teve por fim fazer um guilty by association, ou seja, imputar à Fraternidade São Pio X o mesmo caráter daqueles hereges que se separaram da Igreja após os vários concílios. Mas é fato interessante que não conseguem imputar consistentemente à congregação nenhuma heresia similar à desses hereges separados. O grupo dos conservadores (não o Sr. Brodbeck) apela à IA, a citações descontextualizadas, e tantas coisas mais, mas nenhuma heresia. Aferram-se apenas a um conceito estranho de obediência violado pela FSSPX.
Chegamos, então, ao ponto em que podemos ficar por aqui, mesmo que deixemos a desejar pela brevidade e pela incompletude da abordagem (vita brevis). Mas no pouco que abordamos vimos que o argumento de Brodbeck se sustenta sobre fórmulas que ele e os próprios continuístas não aplicam ao pé da letra. Não é o “radtrad-rupturista” inventando alguma coisa, mas os próprios autores dizendo em suas palavras: conjunto de continuidade e descontinuidade a diversos níveis. Isso, depois, é colocado numa nova embalagem e vendido como ortodoxia: continuidade na reforma.
Isso nos devolve, por um caminho mais longo, à imagem com que abrimos: a dos semiarianos do século IV. Ário dizia “substância diferente”; Atanásio dizia “mesma substância”; e o meio-termo homoiousiano (“substância parecida”) antes de ser uma síntese superior às duas posições, era a recusa de tomar partido sob o manto de uma suposta profundidade. O “conservador” de hoje faz o mesmo movimento: entre o “houve ruptura e ainda bem” (o modernista), e o “houve ruptura e lamentamos” (o tradicionalista), opta por um terceiro termo (“não houve ruptura alguma, apenas um aprofundamento que exige de nós um esforço hermenêutico cada vez mais sofisticado para ser compreendido”) que se sustenta exatamente num conjunto de continuidade e descontinuidade em diversos níveis. E quando se chega ao suposto esclarecimento da questão, na Declaração Dominus Iesus e no discurso de 2005, encontramos a confissão de que o problema nunca foi resolvido, apenas descrito com mais elegância.
O critério que a Igreja sempre teve para discernir o que é verdadeiramente contínuo na Revelação, conforme coloquei em um texto anterior, aqui nesta mesma página, é a fórmula de São Vicente de Lérins (século V) no Comonitório: Na Igreja Católica é preciso pôr o maior cuidado para manter o que se crê em todas as partes, sempre e por todos, também condensada no ensinamento de Santo Irineu de Lyon (século II) em Contra as Heresias:
A verdadeira doutrina é aquela dos apóstolos, é a antiga difusão da Igreja em todo o mundo, é o caráter distintivo do Corpo de Cristo que consiste na sucessão dos bispos aos quais foi confiada a Igreja em qualquer lugar onde ela esteja; é a conservação fiel das Escrituras que chegou até nós, a explicação integral delas, sem acréscimos ou subtrações, a leitura isenta de fraude e em plena conformidade com as Escrituras, a explicação correta, harmoniosa, isenta de perigos ou de blasfêmias e, mais importante, é o dom da caridade, mais precioso do que a doutrina, mais glorioso do que a profecia, superior a todos os outros carismas.20
É esse teste, aplicado sem pressa e sem má vontade, que separa o desenvolvimento homogêneo da mera ruptura travestida de profundidade ou meio-termo. E é precisamente esse teste que tanto o subsistit in quanto a hermenêutica da reforma, especialmente aplicada à narrativa continuísta, falham.
É nesse contexto, o das sagrações episcopais da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, escândalo para os conservadores de hoje como Atanásio foi escândalo para os semiarianos, que este comentário ao vídeo de Brodbeck se encerra. Não cabia e nem cabe aos tradicionalistas (cujas ofensas dele e de seu grupo aceitamos de bom grado e a modo de elogio) inventar a contradição. A mera leitura dos próprios textos e a declaração de seus autores e aderentes mostram a precariedade da posição conservadora hodierna em relação ao magistério anterior, especialmente num mundo pós-Papa Francisco.
Fim.
(Assinado: Leonildo Trombela Júnior)
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PS.: Se Brodbeck deixou recomendações bibliográficas para reforçar seu ponto, deixo também algumas. Além do já recomendado (por ele) Wiltgen, recomendo (clique no nome para acessá-las ou comprá-las):
Roberto de Mattei - O concílio Vaticano II: Uma história jamais escrita (factual, basta ver o que se passou no Concílio)
Pe. Jean-Michel Gleize, FSSPX - O que é a verdadeira Tradição? A visão de São Vicente de Lérins (uma das vezes em que rebate Bernard Lucien, este indicado por Brodbeck)
Romano Amerio - Iota Unum: Um Estudo das Mudanças na Igreja Católica no Século XX (não é possível ler esse livro e acreditar que tudo foi uma “continuidade na reforma” ou algo que o valha; o rigor e a autoridade do autor são à prova de palpitaria e IA [tal como alguns do grupo conservador fazem uso abusivo])
Pe. Álvaro Calderón, FSSPX - A Candeia debaixo do Alqueire: Questão disputada sobre a autoridade doutrinal do magistério eclesiástico desde o Concílio Vaticano II (sobre a abdicação habitual, por parte da hierarquia, de exercer sua autoridade magisterial)
Pe. Álvaro Calderón, FSSPX - Prometeu, a Religião do Homem: Ensaio de uma hermenêutica do Concílio Vaticano II (o primeiro livro a “decifrar” a esfinge vaticanossegundista)
Notas:
Ética de Aristóteles, livro II, citado em: Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, Ia-IIae, q. 59, a. 1 corpus: “Hábito eletivo que consiste no meio-termo determinado pela razão, segundo o critério do sábio [habitus electivus in medietate consistens determinata ratione, prout sapiens determinabit]”.
Em seu comentário ao trecho (Sententia Ethic., lib. 2 l. 7 n. 4), Santo Tomás explica que a virtude moral adquirida consiste em:
Hábito (habitus) — não é ato nem potência, mas uma disposição estável que aperfeiçoa a potência operativa para agir bem e com facilidade. Isso distingue a virtude de um ato isolado (mesmo bom) e da mera capacidade natural.
Eletivo — a virtude moral (diferente da intelectual) reside na vontade e envolve escolha deliberada (electio), não apenas conhecimento.
Meio-termo relativo a nós (não meio-termo aritmético) — Santo Tomás insiste, seguindo Aristóteles, que o justo meio não é uma média objetiva entre dois extremos quantitativos, mas proporcional à pessoa, à situação e às circunstâncias; determinado pela razão prática.
Segundo a reta razão — este é o critério formal decisivo. É a razão, informada pela prudência, que fixa onde está o meio-termo em cada caso concreto.
Ou seja, o mundo moderno agnóstico, liberal e indiferentista em matéria de religião. Mas, a bem da verdade, esse indiferentismo é só até certo ponto: quando pressionado mostra-se plenamente anticristão.
Seria diferente um debate acadêmico perante uma plateia qualificada. Mas esse grau de civilidade quase não existe mais, não é mesmo?
Cf. Myles Allman, "'This is a canonical mess': Fr. Murray explains why SSPX priests, laity are not excommunicated," LifeSiteNews, 8 de julho de 2026. Disponível em: https://www.lifesitenews.com/news/this-is-a-canonical-mess-fr-murray-explains-why-sspx-priests-laity-are-not-excommunicated/
Cardeal Joseph Ratzinger, "Conferência no Congresso de 25-27 de fevereiro de 2000 sobre a eclesiologia da Constituição conciliar Lumen Gentium", em Documentation Catholique n.º 2223, 2 de abril de 2000, p. 310. Cf. https://laportelatine.org/critique-du-concile-vatican-ii/le-subsistit-in-et-la-nouvelle-conception-de-leglise
Ibid.
Johannes Dörmann, “Declaratio Dominus Iesus und die Religionen”, Theologisches, Ano 30, n.º 11/12 (nov./dez. 2000), col. 453ss. Grifos meus.
“Informamos-vos que o vosso ensaio, no qual demonstrastes que os escritos do Cardeal Newman, longe de estarem em desacordo com Nossa Carta Encíclica Pascendi, estão, pelo contrário, em plena harmonia com ela, foi enfaticamente aprovado por Nós: pois não poderíeis ter servido melhor tanto à verdade quanto à dignidade do homem. É evidente que aqueles cujos erros condenamos nesse Documento decidiram entre si criar algo de sua própria invenção, com o qual buscassem atribuir à sua causa a aprovação de uma pessoa ilustre. Assim, por toda parte, afirmam com confiança que derivaram tais coisas da própria fonte e cume da autoridade, e que, portanto, não poderíamos censurar seus ensinamentos; ao contrário, dizem que havíamos até condenado previamente o que um autor tão grande ensinara.”
São Pio X, carta a Dom Edward Thomas, Bispo de Limerick, 10 de março de 1908. Fonte: Actas Sactae Sedis, vol. XLI, 1908, pp. 200-202.
Dardo Juan Calderón, A ‘dualidade’ de Newman, ou os começos do “reino dividido” – parte 1. Disponível em: https://catolicosribeiraopreto.com/a-dualidade-de-newman-ou-os-comecos-do-reino-dividido-parte-1/
ibid: “if I am obliged to bring religion into after-dinner toasts, I shall drink—to the Pope, if you please—still, to Conscience first, and to the Pope afterwards.”
ibid.
Pe. Jean-Michel Gleize, “Newman” Courrier de Rome, Ano LIII, n. 627, p. 7, dez. 2019.
“Capítulo 5 - Desenvolvimentos genuínos contrastados com as corrupções”. Disponível em: https://www.newmanreader.org/works/development/chapter5.html#top
Ibid.
“Para descobrir, então, o que é a corrupção ou a perversão da verdade, vamos investigar o que a palavra significa quando usada literalmente em relação a substâncias materiais. Ora, é evidente, antes de mais nada, que “corrupção” é um termo aplicável apenas a matérias organizadas; uma pedra pode ser triturada até virar pó, mas não pode ser corrompida. A corrupção, ao contrário, é a desintegração da vida, preparatória para o seu fim. Essa decomposição de um corpo em suas partes constituintes é o estágio que antecede sua dissolução; ela começa quando a vida atingiu sua perfeição e é a sequência, ou melhor, a continuação desse processo rumo à perfeição, sendo ao mesmo tempo a reversão e a anulação do que veio antes. Até que esse ponto de regressão seja alcançado, o corpo possui uma função própria, uma direção e um objetivo em sua ação, além de uma natureza com leis; agora ele está perdendo tudo isso, bem como os traços e sinais dos anos anteriores; e, com eles, seu vigor e suas capacidades de nutrição, assimilação e autorreparação.”
Cardeal Kasper, conferência na ocasião do 40º aniversário da promulgação do decreto conciliar Unitatis redintegratio (Rocca di Papa, 11–13 de novembro de 2004). Citado em https://laportelatine.org/critique-du-concile-vatican-ii/le-subsistit-in-et-la-nouvelle-conception-de-leglise
Para que não fique dúvidas, apresento os termos originais usados no discurso: “È proprio in questo insieme di continuità e discontinuità a livelli diversi che consiste la natura della vera riforma.”
Discurso do Papa Bento XVI aos cardeais, arcebispos e prelados da cúria romana na apresentação dos votos de natal, quinta-feira, 22 de dezembro de 2005 (grifos meus). Disponível em: https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/speeches/2005/december/documents/hf_ben_xvi_spe_20051222_roman-curia.html
Paolo Pasqualucci, “L’ermeneutica della riforma: discontinuità del Concilio nella continuità?”, Divinitas, Nova Series, LIV, 2011, n. 3, pp. 284-312
Contra as heresias, livro IV, Capítulo 33, n.º 8. (Grifos meus)


Muito bom!
Excelente texto. Parabéns!