Carta “Quae Nobis Haud Ita”, do Papa Pio XI
Sobre os princípios e fundamentos gerais da Ação Católica
AO CARDEAL ADOLFO BERTRAM, BISPO DE BRESLAU: SOBRE OS PRINCÍPIOS E FUNDAMENTOS GERAIS DA AÇÃO CATÓLICA.
Diletíssimo filho Nosso, saudações e bênção apostólica.
Grande foi Nossa alegria pela notícia que Nos comunicastes acerca de vossas iniciativas em ordem a promover o crescimento da Ação Católica entre os vossos fiéis, mostrando assim vosso respeito à Sé Apostólica, ao desejar que em carta aos queridos filhos da vossa diocese indicássemos o método mais acertado de progredir no caminho empreendido e déssemos novos encorajamentos para maiores progressos.
A causa em questão não era desconhecida da própria era apostólica, visto que o Apóstolo São Paulo, em sua carta aos Filipenses (cap. IV, v. 3), menciona “seus cooperadores” e fala daquelas “que combateram” com ele no Evangelho. Mas mais do que nunca em nossos tempos, quando a integridade da fé e da moral está em perigo cada vez maior e a escassez de padres é, infelizmente, tão extremada que eles são completamente incapazes de atender às necessidades das almas, devemos ter maior confiança na Ação Católica para ajudar e, com numerosos colaboradores leigos do poder temporal, suprir essa considerável escassez de clérigos.
É evidente que Nossos predecessores aprovaram e aplicaram este método de cuidar da causa católica, os quais, à medida que os tempos se tornavam mais difíceis para a Igreja e para a sociedade dos homens, exortavam todos os fiéis com ainda mais fervor, em uníssono, a se empenharem, sob a liderança dos Bispos, em lutas santas e a proverem a salvação eterna de seus semelhantes da melhor maneira possível. Não foi pouca nossa preocupação com o crescimento da Ação Católica desde o início do nosso pontificado, pois, na Encíclica “Ubi arcano Dei”, declaramos publicamente que ela não estava de modo algum separada do ministério pastoral e da vida cristã, e depois explicamos sua natureza e finalidade, que, se forem devidamente consideradas, não têm outro objetivo senão o de que os leigos participem de certo modo do apostolado hierárquico.
Pois a Ação Católica não consiste apenas na busca individual pela própria perfeição cristã, que é primária e principalíssima, mas também no mais verdadeiro apostolado, comum aos católicos de todas as classes sociais, cujos pensamentos e obras estão em harmonia com aqueles centros específicos de sã doutrina e de múltiplos e ativos labores, devidamente e legitimamente constituídos e apoiados pela autoridade dos Bispos.
Aos fiéis assim reunidos em estreita união para responder ao chamado da hierarquia eclesiástica, esta mesma hierarquia sagrada, assim como lhes comunica o mandato, também os encoraja e os impele. Ora, do mesmo modo que o mandato confiado por Deus à Igreja e ao seu apostolado hierárquico, esta Ação não deve ser chamada puramente externa, mas espiritual; não terrena, mas celestial; não política, mas religiosa.
No entanto, podeis, com razão e merecimento, chamá-la de “social”, visto que sua finalidade é dilatar o Reino de Cristo Nosso Senhor, e deste modo, quando se alcança o bem supremo para a sociedade, buscam-se outros bens que dele procedem, como os que pertencem ao Estado e se chamam políticos, ou seja, bens que não são privados e próprios dos indivíduos, mas comuns a todos os cidadãos; tudo isso pode e deve obter a Ação Católica, contanto que, obedecendo humildemente às leis de Deus e da Igreja, seja completamente alheia às atividades dos partidos políticos. Se os católicos que participam do apostolado hierárquico estiverem imbuídos e animados desse espírito, não poderão fazer outra coisa senão promover, como fim próximo, a união dos fiéis de todas as nações em questões de moral e religião, e também – o que é mais importante – poderão difundir amplamente os princípios da fé e doutrina cristã, sua enérgica defesa e sua crescente prática na vida privada e na vida pública.
Portanto, na Ação Católica, todos seremos de um só coração, sem distinção de idade, sexo, classe ou cultura, sem distinção de raça ou partido, contanto que estes não sustentem o contrário da doutrina evangélica e a lei cristã, e que aqueles que os professam não pareçam, por isso, renunciar à mesma doutrina e lei. Pois falamos daquela Ação que abrange o homem todo, cuja correta formação religiosa e civil ela promove, isto é, a sólida piedade, o rico conhecimento da sã doutrina e a plena integridade dos costumes, sem os quais ninguém poderá exercer frutuosamente o apostolado hierárquico.
É fácil compreender, porém, que a Ação Católica, quanto à sua prática, variará de acordo com a diversidade de idade e sexo, de acordo com as condições variáveis de tempos e lugares, de modo que aqueles que pertencem à associações de jovens se dediquem especialmente ao trabalho de formação para empreendimentos futuros, enquanto os homens de idade madura terão um campo mais amplo aberto para eles, já que lhes é próprio proporcionar à sociedade todos os benefícios possíveis que de algum modo concordem com a missão divina da Igreja.
A Ação Católica também não se esforça para realizar o que se propôs por um caminho ou método particular; pelo contrário, ela converte e dirige para o apostolado social obras e associações de todo tipo, sejam principalmente as religiosas, como as estabelecidas para educar a juventude ou fomentar a piedade, sejam as civis e econômicas. E esta Ação, pela sábia organização de forças e deveres que possui, derivada de um governo único e harmonioso pelo qual são regidos os vários elementos de toda a sua estrutura — que são grupos de homens e mulheres, bem como jovens de ambos os sexos —, enquanto ela mesma usufrui das vantagens que as associações religiosas e econômicas lhe proporcionaram, irá ajudá-las e fomentá-las, fazendo com que não apenas o consenso e a benevolência, mas também o auxílio de obra colaborativa se estabeleça mutuamente, para benefício da Igreja e da sociedade humana, benefício este que facilmente se obtém.
Mas, ao obter este bem, que é acima de tudo religioso e moral, a Ação Católica certamente não impedirá o acesso de seus membros à esfera pública em todas as suas manifestações, visto que seu âmbito de atuação é amplo; pelo contrário, os tornará mais aptos para os deveres públicos, visto que os formou rigorosamente para a santidade da vida e a observância dos deveres cristãos. Ora, quem mais parece ter nascido para dar à sociedade os melhores cidadãos de todos, os mais religiosos da república e os mais doutos dentre todos os magistrados? Quem, então, afirmaria que ela negligencia os verdadeiros interesses do Estado, interesses esses que, em última análise, não excedem o campo da caridade cristã, uma vez que pertence à caridade promover todo tipo de prosperidade pública?
Por ventura não promove a Ação Católica esse tipo de prosperidade, na qual está contido o fim próximo da sociedade civil, quando instrui os seus a respeitar a autoridade legítima e obedecer às leis, observar e proteger aquelas coisas das quais dependem a segurança e a felicidade dos povos: como a integridade dos costumes, como a segurança da vida doméstica, como a concórdia e o consenso entre as ordens civis, enfim, tudo aquilo que contribui para tranquilizar e proteger a sociedade humana? E certamente consegue isso mais facilmente porque, como dissemos, não se envolve de modo algum nos interesses partidários, ainda que essas mesmas facções sejam compostas também por católicos — aos quais certamente não é proibido discordar sobre controvérsias deixadas ao livre debate —, pois ela obedecerá espontaneamente aos conselhos e prescrições que as autoridades eclesiásticas derem, mesmo que estes contrariem ou pareçam contrariar a disciplina e os interesses partidários.
Pelo que mencionamos até agora, fica claro, Nosso amado filho, que a Ação Católica deve ser considerada, com razão e merecimento, como uma espécie de meio e método pelo qual a Igreja se utiliza para conceder todos os tipos de benefícios às nações: um meio e método, dizemos, que parece ter sido introduzido pela providência e benevolência divinas, para que a Igreja possa atrair docemente à doutrina e à lei evangélicas aqueles que, não tendo comunicação e conversação com os sacerdotes, facilmente cederiam às falácias e às artes perversas de homens sediciosos.
Estes são os princípios e fundamentos comuns a qualquer Ação Católica, ainda que, de uma única e mesma causa, de acordo com a natureza variável dos povos e as condições variáveis das nações, se produzam efeitos diversos. É evidente por estas palavras que ela é digna do favor não apenas de bispos e sacerdotes — que sabem muito bem que a consideramos como a menina dos olhos — mas também dos governantes e magistrados de qualquer Estado. Pois, se for sustentada por tal patrocínio comum, ela produzirá uma maravilhosa abundância de frutos entre as nações católicas e, em toda parte, despertando a religião nas almas, conduzirá não pouco à prosperidade civil. Desejamos sinceramente que isso aconteça de forma auspiciosa.
Enquanto isso, dileto filho Nisso, somos muito gratos a vós por, como um fiel intérprete da Nossa mente, vos esforçardes para propagar a Ação Católica em vossa diocese, e não menos porque Nos destes a oportunidade de esclarecê-la para o bem comum.
Por isso, como penhor dos dons celestiais e testemunho de benevolência paternal, Nós muito amorosamente concedemos a vós, Nosso amado filho, e a todo o vosso clero e povo Nossa bênção apostólica.
Dado em Roma, junto a São Pedro, no dia 13 de novembro do ano de 1928, sétimo do Nosso Pontificado.
PIO PP. XI


