Umbrais da Tradição católica
Prólogo
Nota prévia
Esta série de cinco textos, a qual chamo de “Umbrais da Tradição católica” — em óbvia e despretensiosa alusão à obra do Padre Álvaro Calderón —, estava curando na prateleira há alguns anos e sem pressa para ver a luz do dia1. Acontece que, nos últimos três meses (desde junho de 2025), certos acontecimentos aceleraram e multiplicaram os ataques contra os fiéis católicos da Tradição. E por outros motivos que não convêm citar aqui, acredito que chegou a hora de publicá-la.
Além deste Prólogo, teremos as seguintes partes:
Parte 1 - O que é Tradição?
Parte 2 - O “ato” da Tradição
Parte 3 - A correta noção de “tradição viva”
Parte 4 - A Tradição em sentido “social”, tal como se usa hoje
O objetivo principal da série, conforme se verá nas próximas semanas, é trazer aqui um guia básico para os fiéis recém-chegados à Tradição católica.
Prólogo
Assustados com o noticiário anunciando que a partir de dado momento “a Igreja” aprovará certas coisas que desaprovava no passado e que desaprovará coisas que aprovava; assustados com abusos litúrgicos cada vez maiores na paróquia do próprio bairro ou nas paróquias dos bairros próximos; perdidos cada vez mais em um falatório sem-fim sobre a crise moral que assola o mundo; estupefatos cada vez mais em suas próprias dioceses diante de escândalos protagonizados pelo clero e pelos leigos mais famosos; Enfim, diante de um emaranhado de maldades e absurdidades, muitos católicos simplesmente se anestesiam e seguem sua vida normalmente, apesar de tudo isso; outros, porém, decidem tomar alguma posição por causa de tudo isso, pois toda consciência busca no final o repouso, seja aceitando a degradação como os primeiros ou enfrentando-a como os segundos.
Pois bem, certamente aqueles que forem ler esta série que começa agora estão no segundo grupo. Por algum motivo, caro leitor, você ouviu falar ou pelo menos esteve presente uma vez nesse Santo Sacrifício da Missa rezado de maneira diferente ao qual você estava acostumado em sua paróquia. É de fato um mundo novo. Essa Missa dos tempos apostólicos, tal como você começou a ver, já está codificada desta maneira desde pelo menos o século IX com o Papa Gregório VII e teve sua regulamentação final e perene pelo Papa São Pio V em uma bula papal intitulada Quo Primum Tempore de 14 de julho de 1570. Isso não quer dizer que essa Missa é imune a aprofundamentos orgânicos, tais como os que vieram depois, mas sim que, em sua essência, ela não pode ser modificada ou substituída por nenhuma maquinação humana. Essencialmente, a “Missa de sempre” é aquela que rezaram todos os santos ao longo dos séculos: e é essa Missa mesma que os levou à santidade. E mesmo assim, é possível que você a tenha conhecido há bem pouco tempo. É um espanto que todos (inclusive este que vos escreve) passam em algum momento: há algo de diferente aí que está escondido de uma grande maioria.
E justamente por haver algo de diferente aí, muitos fiéis chegam à essa nova realidade e ficam um tanto perdidos. Uns, sem paciência, logo vão embora em busca de respostas fáceis ou de respostas que estejam de acordo com uma conclusão pré-concebida. Às vezes culpam algum fator lateral que praticamente não diz respeito à nova realidade que presenciaram: talvez culpam o local físico, o comportamento de alguém, alguma palavra que não gostaram de ouvir, etc. Outros, esperançosos, preferem o caminho da paciência, pois querem encontrar esse tesouro escondido que alguns poucos guardam-no com muito afinco: “O Reino dos céus é também semelhante a um mercador que busca pérolas preciosas, e, tendo encontrado uma de grande preço, vai, vende tudo o que tem, e a compra”2.
Esta série é destinada àqueles “alegres na esperança, pacientes na tribulação e perseverantes na oração”3 que viram na Tradição católica um tesouro e querem possuí-lo, mas chegaram agora nos umbrais dessa descoberta e ainda não sabem como alcançá-lo. Ainda estão sacudindo a poeira da longa viagem do exílio e precisam saber onde chegaram.
Foi pensando nesse fiel recém-chegado à Tradição que esta série foi pensada.
Não há pretensão aqui de ser uma série longa aprofundada. Ainda não entramos no castelo da Tradição: estamos só nos umbrais. O que há de profundo está lá dentro. O assunto aqui abordado abarca bibliotecas inteiras, de modo que seria ilusório querer aprofundar um ponto em detrimento de todos. O que queremos aqui é situar no mapa da crise o leitor curioso de querer conhecer a Tradição e assim ajudá-lo a navegar nas águas turbulentas deste século XXI. E justamente por não ter pretensões acadêmicas, mas apenas informativa, a linguagem tenderá a ser mais leve e amigável, caso o tópico permitir.
Aviso
Aqui vai uma primeira informação de navegação: mais do que qualquer coisa dita aqui ou nos livros indicados ao longo dos capítulos, nada vai guiá-lo melhor no caminho do céu do que um padre tradicional bem formado.4
Deus gosta muitíssimo da autoridade. Contrariamente à uma tendência do conservadorismo político e católico, que vê o clérigo como um mero dispensador de sacramentos, Deus quer dispor profusamente de seus ministros.
Portanto, as leituras são seus muros de fortificação da alma, jamais sua base. Elas serão necessárias para defender a sua fé e a da sua família. Mas assim como em uma casa, a altura do muro não influencia no tamanho da casa, mas influencia em sua segurança. A base da vida católica é, antes de tudo, a vida da graça.
E, antes de começarmos, não podemos deixar de colocar como pressuposto que o leitor já tenha terminado de ler o Catecismo Maior de São Pio X ou o Catecismo Romano (também chamado de Catecismo do Concílio de Trento). Encontra-se nessas duas obras um compêndio das verdades reveladas da doutrina católica, que é um dos meios que Deus nos proveu para nos salvarmos. Neste caso, estamos falando de uma leitura que não faz parte só do muro, mas é do próprio material da fundação: não há como evitá-la. É obrigação do católico saber seu catecismo.
Continua…
Não deixe de ver também:
Prof. Paolo Pasqualucci - Tradição, tradição católica e falsa tradição
Pantaleus (sì sì no no) - Paganismo e cristianismo
Canonicus Romanus (sì sì no no) - Cristianismo e esoterismo
Espero que tenha envelhecido como queijo, não como leite in natura.
Mt. XIII, 45-46.
Rom. XII, 12.
Aqui fica subentendido a opção pelos padres da Fraternidade São Pio X e seus amigos, que vivem em prol de uma boa formação tradicional. Eles têm, portanto, vantagem sobre os demais na hora de guiar seu rebanho.


